A relação conturbada entre a MLS e a Liga dos Campeões

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Fotografia: Sports Illustrated

Na semana passada ficámos a conhecer os finalistas da Liga dos Campeões da CONCACAF: Pachuca CF e Tigres UANL. Os dois representantes da Major League Soccer ainda em prova foram eliminados, pelo que teremos novamente emblemas mexicanos a disputar o troféu continental. Como se explica esta incompatibilidade histórica entre as equipas a Norte do México, e a principal competição de clubes da CONCACAF?

Quem acompanhou o equilibrado confronto entre FC Dallas e Pachuca CF, decidido no último suspiro com um golo de ‘Chucky’ Lozano, poderá pensar que se tratou apenas de um simples infortúnio. Daqueles que ocorrem à beira do apito final, e que são capazes de vitimar conjuntos inteiros, um pouco por todo o universo futebolístico. Muito pelo contrário. Estamos perante uma tendência negativa que vale a pena analisar.

Ora vejamos. Desde 2008/09, temporada em que a CONCACAF deu início a um formato competitivo para a Liga dos Campeões muito semelhante ao que se assiste na Europa, as equipas da MLS nunca venceram a prova, e só estiveram presentes na final em duas ocasiões (2010/11 e 2014/15). Se alargarmos a observação até aos semifinalistas, o cenário fica ainda mais negro. Das nove edições realizadas, e dos 36 semifinalistas encontrados, apenas 7 deles pertencem à MLS.

Apesar dos resultados anteriormente apresentados, a MLS surge confortavelmente como a segunda potência clubística da CONCACAF, já bem distante do futebol que se pratica nos relvados costa-riquenhos, por exemplo. Significa isto que as equipas da Liga MX representam um desafio dificílimo de ultrapassar para os restantes envolvidos, quer sejam eles norte-americanos ou nicaraguenses. Mas afinal, todo o investimento e mediatismo de que a MLS tem beneficiado nestes últimos anos não deveriam ser suficientes para esbater esta diferença?

A resposta mais sensata a esta questão será ‘talvez não’. Se é verdade que o investimento cresceu na MLS, também o mesmo aconteceu do outro lado da fronteira, com os principais emblemas mexicanos a aumentarem anualmente os seus generosos orçamentos. Basta olharmos para os plantéis do Tigres UANL ou do CF Monterrey, que só entre si conseguem segurar jogadores tão valiosos como André-Pierre Gignac, Eduardo Vargas, Dorlan Pabón, Edwin Cardona, Funes Mori, Ismael Sosa, Guido Pizarro, Javier Aquino ou Jürgen Damm. O investimento na MLS não é tão vigoroso no que diz respeito aos limites salariais por plantel, medida que embora promova o crescimento sustentável da prova, e permita mais facilmente a entrada de novos franchisings, vai adiando aquilo que seria uma luta justa contra a Liga MX.

Muitos especialistas apontam a questão do calendário como determinante para o insucesso dos clubes norte-americanos, ano após ano, salvo raras excepções. Isto porque, na maior parte dos casos, a primeira mão dos quartos-de-final da Liga dos Campeões é o jogo inaugural da nova época para quem disputa a MLS, ao passo que os mexicanos já levam meia dúzia de jornadas de competição doméstica. Embora esta seja uma vantagem inegável, não consigo encará-la como decisiva e suficientemente convincente para justificar toda esta relação conturbada que existe entre a MLS e a Liga dos Campeões.

Sobre o calendário, existe outro handicap bem mais relevante para a discussão, que passarei a explicar. Na teoria, se as melhores equipas da MLS em 2015 garantiram ao acesso à Liga dos Campeões, estas só irão participar na Fase de Grupos da prova na segunda metade de 2016. E caso se qualifiquem para a fase a eliminar, terão de competir no arranque de 2017. Trata-se de uma diferença de duas épocas, tempo mais do que suficiente na MLS para uma equipa transitar do topo para o fundo. Graças a este fosso temporal, vemos muitas vezes que os representantes norte-americanos que vão a jogo, sobretudo nas partidas a eliminar, não são, naquele momento, os mais indicados para equilibrar as contas com os mexicanos.

OS CASOS EXCEPCIONAIS DE REAL SALT LAKE E MONTREAL IMPACT

Os plantéis da Liga MX podem ter mais soluções e o calendário pode ser-lhes mais favorável, mas isso nunca impediu os norte-americanos de sonharem com a conquista do troféu, e consequente participação na Liga Mundial de Clubes. Estiveram muito perto em 2010/11 e em 2014/15, com as campanhas de Real Salt Lake e Montreal Impact, respectivamente.

No caso do Real Salt Lake, houve mérito, mas também um certo alinhamento favorável. Se na Fase de Grupos conseguiram superar o Cruz Azul na luta pela liderança, evitaram os mexicanos até à final, ao eliminar os compatriotas Columbus Crew SC, e os costa-riquenhos do Deportivo Saprissa. Na final a duas mãos, empataram a duas bolas no campo do CF Monterrey, e perderam 0-1 em casa, ficando a um golo do troféu. Desta forma, o Real Salt Lake protagonizou aquela que é ainda hoje a melhor campanha de sempre na Liga dos Campeões por parte de um clube da MLS (pós-2008/09). Uma caminhada memorável construída pelo técnico Jason Kreis, e por figuras como Kyle Beckerman, Álvaro Saborío ou Nick Rimando.

Mais recentemente foram os canadianos do Montreal Impact a repetir a proeza, arrebatando o título de vice-campeão continental. Sem representantes mexicanos no grupo onde eliminou os New York Red Bulls, os Impact perceberam que podiam fazer algo mais quando eliminaram o Pachuca CF nos quartos-de-final. O golo no último minuto de Cameron Porter foi o ritual de iniciação perfeito para o então Rookie da equipa sediada em Montreal. Seguiu-se o afastamento dos costa-riquenhos do LD Alaljuelense nas meias-finais, e restava derrubar novo Golias mexicano, desta feita o Club América. Após o empate a uma bola na Cidade do México, 61 mil pessoas reuniram-se no Olympic Stadium, perfazendo uma das maiores assistências de sempre na história do recinto. Só que no relvado a história foi outra, e o Club América venceu por 4-2. O treinador do emblema canadiano era Frank Klopas, e entre os jogadores mais notáveis, destaque para Nigel Reo-Coker, Laurent Ciman e Ignacio Piatti.

Enquanto a MLS não estabilizar, no que diz respeito ao número de franchisings em prova, e enquanto os seus clubes de menor capital não subirem a parada, o crescimento da marca MLS e do seu nível competitivo continuará a acontecer em velocidade de cruzeiro. Entretanto, as suas equipas vão chegar invariavelmente à Liga dos Campeões na qualidade de ‘outsiders’, o que não será propriamente mau. Desta forma, propicia-se a construção de excelentes narrativas sobre a superação, bem ao conhecido jeito norte-americano.

Tais narrativas poderão surgir já na próxima edição da prova, com as alterações ao formato anunciadas pela CONCACAF. Para além do alargamento de 24 para 31 participantes, a habitual Fase de Grupos dará lugar a eliminatórias a duas mãos. Tanto os emblemas mexicanos como os militantes da MLS só entram em campo a partir dos oitavos-de-final, ainda em Fevereiro.

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