Breve história dos portugueses na Major League Soccer

Foi necessário esperar uma dúzia de temporadas na Major League Soccer para assistirmos à chegada do primeiro futebolista português a esta prova. Em Maio de 2007, Abel Xavier assinava contrato com o Los Angeles Galaxy, por aconselhamento de David Beckham, que viria a ser seu colega de equipa no clube da Califórnia. Desde então, uma quinzena de jogadores lusos decidiram experimentar os relvados norte-americanos, com sortes diferenciadas. Saiba quem foram, através deste levantamento histórico realizado pelo Soccer em Português.

OS PIONEIROS

O defesa internacional Abel Xavier actuava no Middlesbrough quando recebeu a proposta que o fez atravessar o Oceano Atlântico, e quase a totalidade do território norte-americano. O primeiro português na Major League Soccer aterrou em Los Angeles quase em simultâneo com David Beckham em meados de 2007, mas a sua estadia não foi tão demorada quanto a do ícone inglês. Completou uma dezena de jogos na recta final da temporada, e outra dezena no começo de 2008, no decorrer de um momento colectivo desfavorável. Posteriores desentendimentos com o treinador holandês Ruud Gullit motivaram a saída precoce do clube aos 35 anos, naquela que acabaria por ser a sua última experiência enquanto jogador. Numa belíssima entrevista realizada pela jornalista Alexandra Simões de Abreu para o Expresso, Abel Xavier descreve em detalhe esta sua derradeira paragem futebolística, dentro e fora do campo.

Quatro épocas mais tarde, chegava David Viana ao Real Salt Lake, um extremo luso-francês (nascido em Estrasburgo) oriundo das reservas do Atlético Madrid. Mereceu apenas duas oportunidades enquanto suplente utilizado, completando um total de 27 minutos. Relegado para as reservas pouco depois, David Viana voltaria ao Velho Continente, onde representou os ingleses do Luton Town, e o Olhanense, até estabilizar no país de origem, ao serviço do ASC Biesheim, que ainda representa, no terceiro escalão francês.

Diz o ditado popular que à terceira é de vez, e no caso dos futebolistas portugueses na Major League Soccer, foi mesmo assim. Em 2013, o FC Sion optou por emprestar José Gonçalves ao New England Revolution, e o defesa-central trilhou um percurso valoroso, que o tornou no português mais bem-sucedido da Major League Soccer até hoje. Assumiu desde cedo a liderança do quarteto defensivo, e sagrou-se vice-campeão em 2014, ano em que foi eleito Defesa do Ano, reflexo de uma temporada fantástica. Deixou o Revolution no final de 2016, para uma aventura na Índia, vestindo a camisola dos NorthEast United.

UMA ESPÉCIE DE ‘BOOM’ DO JOGADOR PORTUGUÊS, COM IMPACTO REDUZIDO

A partir de então, a presença portuguesa na MLS começou a ser mais vincada, com 13 novas entradas nas últimas cinco épocas. Em 2014, um trio proveniente exclusivamente do SL Benfica tentou a sua sorte, sem grande sucesso. Yannick Djaló, novamente emprestado, desta feita ao San Jose Earthquakes, não encantou o suficiente para merecer a confiança de um segundo ano. Noutro dossiê, devido a uma parceria com o Orlando City SC, os benfiquistas enviaram o centro-campista Estrela e o lateral-direito Rafael Ramos, uma dupla de juniores em destaque na UEFA Youth League, para o clube da Flórida. Estrela apenas somou minutos nas reservas e em jogos da Taça dos EUA, ao passo que Rafael Ramos se manteve no clube até 2017, apesar dos sucessivos problemas físicos, e na MLS até ao último Verão, em que trocou o Chicago Fire pelos holandeses do FC Twente.

No ano seguinte, contabilizaram-se dois defesas-centrais, que perfizeram somente uma temporada completa. O primeiro foi Steven Vitória, luso-canadiano emprestado pelo SL Benfica ao Philadelphia Union, que cumpriu grande parte do ano a titular no eixo defensivo, embora sem receber uma proposta satisfatória que levasse à sua permanência na equipa. Contudo, esta experiência norte-americana acabaria por se revelar bastante recompensadora para Steven Vitória, por lhe ter aberto as portas da selecção canadiana, que desde então já representou em dez ocasiões. Outro defesa a integrar os quadros da MLS em 2015 foi Paulo Renato. Proveniente dos açorianos do Operário Lagoa, arriscou fazer a pré-temporada com o San Jose Earthquakes, e ganhou. Ficou o plantel até final da época, sempre numa lógica de segunda opção, e completou meia-dúzia de jogos, até retornar aos Açores.

O TRIO DE CENTRAIS QUE CONFIRMA A TENDÊNCIA DEFENSIVA

Registaram-se novamente entradas para a zona central da defesa em 2016, três para ser mais exacto (Sambinha, Nuno André Coelho e João Meira), reforçando assim uma preferência norte-americana nesta especificidade lusitana. Entre os 16 portugueses que já actuaram na Major League Soccer, nove pertencem ao sector mais recuado, e desse grupo, sete jogam habitualmente no eixo defensivo.

À semelhança do que sucedeu com o SL Benfica e o Orlando City SC, também o Sporting CP celebrou um acordo de cooperação com outro franchising norte-americano, o New England Revolution, e em virtude desse convenção, Sambinha deixou a equipa ‘B’ leonina para representar o emblema de Boston por empréstimo. O defesa que possui nacionalidade guineense e portuguesa contabilizou apenas uma partida completa nos Estados Unidos ao longo da temporada, tendo acabado por abandonar New England, em busca de mais minutos. Encontrou-os pouco depois no Sp. Covilhã, que o acolheu prontamente.

Depois de largos anos na principal liga de clubes portuguesa, e de uma curta experiência na Turquia, Nuno André Coelho aceitou o convite do Sporting Kansas City para fortalecer o quarteto defensivo. No único ano em que militou na MLS, sagrou-se o central da equipa com mais minutos somados em todas as competições na época, antes de decidir retornar aos relvados lusos. Nuno André Coelho é ainda hoje o único futebolista português a ter jogado na Liga dos Campeões da CONCACAF, em dois encontros da Fase de Grupos diante dos tobaguenhos do Central FC.

Fotografia: kansascity.com

O terceiro e último defesa central português a assinar por um clube da MLS em 2016 foi João Meira, ex-Belenenses. Ao serviço do Chicago Fire, completou duas épocas bastante positivas a título individual, onde se revelou um esteio importante da equipa, ao lado do holandês Johan Kappelhof. Optou por não permanecer uma terceira temporada, e rumou à Noruega, para actuar pelo Valerenga.

AS SORTES DIFERENCIADAS DE JOÃO PEDRO, GERSO FERNANDES E PEDRO SANTOS

2017 começou de forma promissora, com a chegada de João Pedro ao LA Galaxy, um jovem médio de 23 anos que tinha começado a dar nas vistas no V. Guimarães. Contudo, teve a infelicidade de aterrar numa das épocas mais desastrosas de sempre para o emblema californiano, que terminaria o ano na última posição da Conferência Oeste. No meio de toda a instabilidade, João Pedro foi o quarto jogador mais utilizado do plantel, assumindo vários papéis dentro de campo, mas nunca encontrando a sua voz. Seguiu-se meio ano de 2018 pontuado com presenças na equipa de reservas, e um empréstimo aos gregos do Apollon Smyrnis, a cumprir até ao final da época europeia.

Desfecho diferente teve Gerso Fernandes, extremo com nacionalidade guineense e portuguesa, que trocou o Belenenses pelo Sporting KC, na procura assumida de integrar uma realidade competitiva onde pudesse lutar regularmente por títulos. Nas duas temporadas que disputou, contribuiu activamente para a conquista da Taça dos EUA (2017), e ajudou a garantir de forma consecutiva a presença nos Playoffs da MLS, atingindo as meias-finais da prova no ano transacto. Avizinha-se agora a árdua batalha da Liga dos Campeões, que começará diante dos mexicanos do Toluca, e Gerso não esconde as suas ambições para o novo ano. «Espero que 2019 seja a temporada do título. O ano passado já estivemos muito perto, e não o conseguimos por culpa nossa. Isso está-nos atravessado, e é óbvio que queremos títulos. É para isso que trabalhamos todos os dias». O sucesso de Gerso em Kansas City muito se deveu a um feliz acaso, que influenciou de forma decisiva o seu processo de adaptação à nova cidade. Conheceu Emmy, a sua actual esposa, logo numa das primeiras semanas ao serviço do Sporting KC. «Sem dúvida que a minha esposa foi muito importante na minha adaptação e desenvolvimento enquanto pessoa e jogador. Ela tornou-se num dos meus principais pilares aqui nos Estados Unidos», admite Gerso Fernandes. Convém ainda salientar que Gerso foi o primeiro português a assinar um contrato de Designated Player, que o coloca acima do tecto salarial do plantel.

O ex-bracarense Pedro Santos acabaria por entrar na Major League Soccer igualmente na condição de Designated Player pouco depois. Corria o Verão de 2017 quando o Columbus Crew confirmou a contratação do extremo português, que entrou logo em acção, ajudando o clube a alcançar as meias-finais dos Playoffs da MLS. Seguiu-se uma época menos exuberante, tanto a nível individual como colectivo, e Pedro Santos procurará certamente mostrar todo o seu valor em 2019, agora sob a orientação do técnico argentino Guillermo Barros Schelotto.

O PRIMEIRO PORTUGUÊS DO SUPERDRAFT E OUTRO QUE QUE ESTEVE PERTO DE O SER

Nunca um jogador de nacionalidade portuguesa havia sido seleccionado no MLS SuperDraft até então, pese embora o excelente trabalho que tem vindo a ser desenvolvido por empresas emergentes como a Sports4Me ou a NextLevel, especializadas na colocação de jovens desportistas no sistema universitário norte-americano através de bolsas desportivas e/ou académicas. Tudo mudou no início de 2018, quando os estreantes Los Angeles FC optaram por seleccionar o lateral esquerdo João Moutinho, e logo na primeira escolha. O futebolista formado no Sporting CP foi alternando a titularidade com o experiente Jordan Harvey ao longo do ano, o que não configurou uma temporada à altura das expectativas que são tradicionalmente colocadas nos ombros de uma primeira escolha do Draft. Mudou-se no defeso para Orlando City SC, onde chega com condições para conquistar um lugar no onze inicial.

Fotografia: Goal.com

E se vale a pena relevar o feito histórico de João Moutinho, é igualmente justo mencionar o nome de Martim Galvão, que quase se antecipou um ano antes, e esteve às portas da Major League Soccer. Chamado nas vésperas do Super Draft para os habituais amigáveis de observação, devido ao seu percurso meritório pelos relvados universitários, não ouviu o seu nome ser chamado no decurso da selecção. Contudo, Martim Galvão valoriza a experiência, ao explicar que «depois de três anos a jogar pela faculdade, consegui o objectivo de estar ao dispor de equipas da principal liga norte-americana. A oportunidade não apareceu, mas continuei a perseguir os meus objectivos». Surgiu um convite do Nashville SC, um dos próximos integrantes da Major League Soccer, mas uma lesão grave e a subsequente falta de oportunidades conduziram à sua saída dos Estados Unidos. Depois do Chipre, aventura-se agora na vizinha Grécia.

ANDRÉ HORTA, O 16º

Por último, André Horta. O décimo sexto português a competir na Major League Soccer apareceu em Los Angeles a meio da temporada, para partilhar o balneário dos LAFC com o compatriota João Moutinho. Mais um jogador merecedor de um contrato de Designated Player, e cuja transferência rendeu perto de 6 milhões de euros ao SL Benfica. Protagonizou uma estreia desastrosa, ao sair do banco numa partida entre rivais, e ter praticamente oferecido o golo ao adversário. No que restou da época, demorou mais do que se previa a encaixar na equipa, mas talvez uma pré-temporada completa com o Los Angeles FC façam maravilhas a esta jovem promessa. Aguardemos.

Estes são os dezasseis portugueses da Major League Soccer. Quem será o décimo sétimo?

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