Estados Unidos ou México: quem levará a melhor?

Apesar de alguns contratempos inesperados pelo caminho, Estados Unidos e México preparam-se para disputar a final da Gold Cup, como a teoria antecipava, na madrugada de Domingo para Segunda-feira, às duas horas. Em jeito de antevisão, o Soccer em Português dá conta dos principais destaques da selecção norte-americana no percurso até ao jogo do título. Para uma contextualização mais rigorosa da grande final, surge também o contributo inestimável do especialista em futebol mexicano, João Pedro Cordeiro.

NOTAS SOBRE A CAMINHADA NORTE-AMERICANA

A presente Gold Cup constituiu a primeira prova de fogo oficial do novo seleccionador norte-americano, Gregg Berhalter, no cargo desde Dezembro. Garantir o acesso à final vai ao encontro das expectativas mínimas dos adeptos, mas um eventual triunfo na competição significaria um salto de confiança geral auspicioso, que vinha mesmo a calhar após a irremediável ausência do último Campeonato do Mundo. O histórico não é simpático. Em cinco finais da Gold Cup contra os mexicanos, os habituais anfitriões da prova apenas venceram em 2007. O último confronto nestas condições deu-se há oito anos, e terminou com uma vitória dos tricolores por 4-2. Se mudarmos a agulha para jogos entre Berhalter e Martino, que se verificaram em duas épocas da Major League Soccer (2017 e 2018), sempre entre o Columbus Crew e o Atlanta United, o saldo mantém-se desfavorável. O técnico argentino venceu quatro em cinco, embora tenha saído derrotado após grandes penalidades no momento mais importante, os Playoffs.

A favor dos Estados Unidos está muito daquilo que vimos em campo nestes últimos cinco encontros. É verdade que um golo sofrido apenas em 450 minutos possa não parecer particularmente vistoso quando os adversários são a Guiana ou mesmo o Curaçao, mas existem aspectos da caminhada que devem ser ressalvados. Comecemos pelas individualidades. Muito se tem falado sobre Christian Pulisic, novo reforço do Chelsea, e prodígio indubitável da selecção norte-americana, só que a unidade mais consistente nesta competição, e que merece o principal louvor, é Weston McKennie. O jovem de 20 anos do Schalke 04 evidenciou boa distribuição ofensiva, e capacidade física para transportar habilmente o jogo da defesa para o ataque. Face a esta demonstração contínua de qualidade, fica a dúvida sobre o que faria Gregg Berhalter caso Tyler Adams estivesse disponível. Poderia o veterano Michael Bradley ser preterido? E um meio-campo a quatro formado por Bradley-Adams-McKennie-Pulisic? Ou então, já que Pulisic procura tanto os corredores laterais, porque não fixá-lo por lá? Tudo questões difíceis para Berhalter tentar responder.

A nível táctico, não podemos afirmar que o 4x1x4x1 norte-americano esteja a falhar, mas existem problemas de atitude competitiva por resolver. Em várias partidas onde a qualidade do conjunto adversário não assusta, casos da Guiana, do Curaçao, a até do Panamá, temos assistido a uma passividade crónica e a uma perda de intensidade, que faz despertar os fantasmas de um passado bem recente. Por outro lado, existem posições preocupantes, às quais Berhalter necessita de endereçar uma resposta mais contundente. Jozy Altidore ainda vai dando para o gasto, mas em caso de lesão, como se verificou, as alternativas situam-se bem abaixo (Jóhannsson, Wood, Zardes, Dwyer…). Pior vai a lateral esquerda, entregue novamente, e incompreensivelmente, ao central do Fulham, Tim Ream, que figurou em praticamente todas as partidas da competição. Unidade a menos da equipa, e uma debilidade a explorar pelos mexicanos, sem dúvida. Peixe fora d’água, não o seria se as opções de raiz fossem suficientemente convincentes (Villafaña, Morrow, Lovitz…). Aguardemos esperançosamente pela evolução do jovem lateral do Wigan, Antonee Robinson, oxalá seja capaz de exercer a função condignamente.

Tendo em conta as ausências de peso na convocatória do adversário, a equipa dos Estados Unidos parece ter uma oportunidade única de contrariar o histórico de finais contra o México, renovar o título da Gold Cup, e sobretudo, protagonizar um arranque de ciclo positivo, indispensável para devolver a confiança aos seus adeptos. No entanto, estará a selecção mexicana tão debilitada quanto aparenta? Afinal, que México se apresentará do outro lado? Para nos ajudar a encontrar uma resposta contundente e acertada a esta questão, o Soccer em Português recorreu novamente ao especialista em futebol mexicano, João Pedro Cordeiro, figura capaz de traçar um retrato fidedigno da selecção orientada por Tata Martino.

O MÉXICO DE MARTINO

(por João Pedro Cordeiro)

«Sem alguns dos principais nomes do atual panorama futebolístico mexicano, fosse por decisão técnica/do próprio jogador, fosse por questões físicas, o México de Tata Martino é ainda uma máquina em desenvolvimento e, isso, para mal do argentino, tem-se percebido em demasia ao longo da competição. O México é ainda uma equipa em construção e à procura de dinâmicas e entrosamento. Sem nomes como Hirving Lozano, Jesus Corona ou mesmo Diego Lainez, tem faltado surpresa, criatividade, irreverência, à equipa de Martino. Algo especialmente visível nos encontros da fase a eliminar da prova, nos quais o México conseguiu apenas ultrapassar Costa Rica e Haiti após os 90 minutos de jogo.

Na Gold Cup, o México tem sido uma equipa em transição e reconstrução, tal como vem sendo de há uns meses a esta parte, altura em que nomes como Héctor Herrera, Tecatito Corona, Carlos Vela ou Gio dos Santos começaram a colocar a representação do seu país um pouco de lado nas suas carreiras. Desde ainda antes da chegada de Tata Martino, ainda com Tuca Ferretti, que a missão do selecionador mexicano tem sido tentar encontrar soluções para o médio e longo prazo da seleção nacional mantendo-a competitiva. Uriel Antuna acabou por aproveitar a oportunidade.

Por tudo isto, não é, por isso, surpresa, que o México tenha encontrado algumas dificuldades inesperadas ao longo da competição. Tal como o próprio Carlos Salcedo confessou, no futebol já não há gigantes e as dificuldades sentidas pelo México em ser uma equipa mandona, adulta em organização ofensiva, obrigaram a equipa de Tata Martino a um esforço físico suplementar de forma a alcançar a final de Chicago.

Por esta altura, o México é ainda uma equipa esforçada, mas desenquadrada das ideias do argentino. Há muito mais de imposição dos jogadores às ideias de Martino do que uma adequação do argentino aos homens que tem em mãos. A ausência dos três melhores extremos mexicanos da actualidade obrigou Martino a puxar para as alas Pizarro ou Roberto Alvarado e a ineficácia de ambos nesta posição tem sido evidente. Tal como o próprio Luis Montes, jogadores mais habituados a pisar terrenos mais centrais. Martino continua a ter matéria prima com que trabalhar, porém, têm faltado jogadores diferenciadores e mais adequados ao modelo do argentino.

Na Gold Cup, o México tem sido uma equipa mais forte em ataques rápidos e na verticalidade do que no assumir do jogo em organização ofensiva. Isto, curiosamente, será bom para Martino em termos de final – e para o futuro em competições em que o México não se veja como favorito e obrigado a assumir o jogo -, mas tem sido a razão pela qual o México não deslumbrou ao longo da caminhada até à final de Chicago.»

ONZES PROVÁVEIS

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