Matt Jones: de universitário nos EUA a profissional em Portugal

Praticamente todas as crianças inglesas crescem com o sonho de se tornarem jogadores de futebol profissionais. O guarda-redes Matt Jones não foi excepção. Integrou as camadas jovens do Port Vale, e em júnior alinhou pelas reservas do West Bromwich Albion. Tapado por uma série de colegas de posição que incluía o polaco Tomasz Kuszczak, as oportunidades eram escassas, e Matt chegou a ponderar desistir do futebol. Entretanto, um contacto inesperado dos Estados Unidos levou-o a ingressar no desporto universitário. Formou-se em Gestão de Empresas, na Sacred Heart University, em Fairfield, Connecticut, enquanto actuava ao serviço dos Sacred Heart Pioneers. Na época 2009/10, Matt Jones tentou a sua sorte em Portugal, e por cá ficou. Experimentou a modalidade em ambos os arquipélagos, primeiro no Santa Clara e mais tarde no União da Madeira. Acabou por assentar na capital, vestindo as cores do Clube de Futebol ‘Os Belenenses’.

O que te levou a escolher o futebol? E a posição de guarda-redes?

Comecei a jogar futebol pela mesma razão que leva todos os miúdos em Inglaterra a fazê-lo. Está no nosso sangue! Todos os rapazes crescem com o sonho de virem a ser profissionais, e eu não era diferente. Tenho um irmão mais velho, e estava sempre a jogar com ele e com os amigos dele. Foi por isso que me tornei guarda-redes. Obrigavam-me a ir à baliza por ser o mais novo! Gostei do desafio e desde então nunca mais olhei para trás.

A falta de oportunidades quando estavas no West Bromwich Albion fez-te considerar outras opções. Como é que foste parar aos Estados Unidos? Ponderaste outro tipo de opções mais perto de casa?

Quando deixei o ‘West Brom’, foram-me apresentadas algumas oportunidades, mas nenhuma despertou a minha atenção. Foram tempos difíceis para mim, e cheguei inclusive a considerar desistir do futebol de vez para entrar na universidade, como a maior parte dos meus amigos estava a fazer na altura. Entretanto, recebi uma chamada inesperada dos Estados Unidos. Eles tinham falado com o ‘West Brom’, que por sua vez havia dado boas recomendações a meu respeito. Em poucas semanas estava num avião com destino a Fairfield, Connecticut.

Formaste-te em Gestão de Empresas, na Sacred Heart University, em Fairfield, Connecticut. Pretendes aplicar os conhecimentos adquiridos de alguma forma depois da tua futura retirada do futebol?

Eu desfrutei de todas as disciplinas que fiz, e sinto que se trata de algo que posso vir a utilizar no futuro. Sempre ambicionei treinar depois de deixar de jogar, principalmente futebol universitário nos Estados Unidos. Contudo, o meu background académico tem-me ajudado todos os dias, e decerto que continuará a ser útil ao longo da minha vida.

Durante a tua estadia na universidade, foste simultaneamente nomeado Atleta Universitário do Ano da Conferência do Nordeste (2009), e formado com a distinção de magna cum laude, reconhecimento atribuído aos estudantes que registem percursos académicos notáveis. Foi difícil conciliar o futebol universitário com os objectivos académicos?

É tudo uma questão de equilibrar os dois aspectos. Quanto mais rápido conseguires encontrar esse equilíbrio, melhor. Mas no fim de contas, apesar de não parecer o mais importante na altura, o lado académico deve vir sempre primeiro. Basta pensarmos que a reprovação nas disciplinas impede-te de jogar, ou então perceber que para 95% de todos os atletas universitários, a profissionalização é um sonho que raramente se torna realidade.

O que é que retiras essencialmente desta experiência na realidade universitária norte-americana?

Posso dizer que retirei imenso da experiência. Mas sinto que o mais importante foi o facto de me ter ajudado a crescer e a ganhar maturidade. Mudei-me para um sítio a milhares de quilómetros da minha família e amigos, e fui atirado para uma cultura e um estilo de vida completamente diferente. Fui forçado a crescer e a amadurecer porque senão tinha sentido tremendas dificuldades. Ganhei a minha independência quando ainda era muito novo e sinto que foi um enorme benefício para mim, e que me ajudou durante a minha vida adulta.

Como descreverias o ambiente do futebol universitário nos Estados Unidos?

Fiquei surpreendido pelo nível de profissionalismo da universidade quando cheguei. Tinha esta imagem, como a maior parte das pessoas tinham na altura, de que a MLS era de um nível e qualidade inferiores, e presumi que o futebol universitário iria reflectir isso mesmo. Obviamente que não estou a dizer que é comparável com a Premier League inglesa, mas apresenta um bom nível, de uma maneira global. As instalações e as condições que providenciam às equipas são também notáveis.

Tendo por base a tua experiência, como vês o desenvolvimento do futebol jovem nos Estados Unidos?

Penso que o futuro será extremamente positivo para o futebol norte-americano. O futebol é o desporto mais praticado pelos jovens nos Estados Unidos, pelo que o lote de jogadores que saem de lá é vasto. O problema ao longo dos anos tem sido manter estes jogadores em actividade quando chegam aos 15, 16 anos, porque começam a jogar futebol americano ou basebol em competições mais a sério. Mas o crescimento da MLS e do interesse pelo futebol tem contribuído para o desenvolvimento da modalidade. Sinto que se trata apenas de uma questão de tempo até a selecção nacional norte-americana se tornar numa força dominante do futebol mundial.

Depois de teres terminado o futebol universitário, não te encontravas elegível para ser selecionado no MLS Superdraft?

Estava elegível e fui indicado para participar no MLS Combine. Contudo, não estava destinado a acontecer. Penso que aquilo que me limitou de alguma forma foi a dimensão da escola onde jogava. Não actuava em nenhuma das grandes escolas de futebol e não era dada muita atenção à nossa equipa e a tudo aquilo que alcançámos. No entanto, acredito que tudo acabou por acontecer como era suposto, e com um bocadinho de sorte e muito trabalho, consegui chegar até onde estou hoje.

Alguma vez consideraste ficar e estabelecer uma carreira nos Estados Unidos?

Cheguei a pensar nisso, e se por acaso tivesse aparecido uma boa oportunidade, provavelmente teria aproveitado. Mas na altura a minha melhor opção era Portugal, e assim que recebi uma proposta de contrato, não pensei duas vezes.

Quando te mudaste para o Santa Clara, notaste diferenças significativas nos métodos de treino e no estilo de jogo? Ou tratou-se de uma adaptação natural?

Foi uma transição fácil porque estava a fazer aquilo que sonhava desde criança. O estilo de jogo é muito diferente mas penso que adaptei-me rapidamente. Obviamente que a maior dificuldade foi a barreira linguística. Não sabia nenhuma palavra em português na altura, mas vários colegas falavam inglês, o que ajudou bastante. Depois fiz um esforço para aprender a língua através de uma explicadora, para aprender o básico. A partir daí bastou ir apanhando a língua pelo dia-a-dia e por estar constantemente em contacto com ela. Mas no geral, foi muito tranquilo, e não poderia estar mais feliz.

Depois da tua experiência no Santa Clara, tiveste um período experimental no Aberdeen. O que é que correu mal?

Não diria que alguma coisa correu mal. Eles decidiram ir noutro sentido porque queriam um guarda-redes com mais experiência do que eu. Gostaram de mim, mas simplesmente não estava destinado a acontecer. Enquanto estava à experiência no Aberdeen, surgiu uma proposta de Portugal, e regressei ao avião.

A tua carreira como futebolista profissional tem desenvolvido uma estreita relação com Portugal. Quais são as coisas de que mais gostas no país?

Portugal está a tornar-se cada vez mais a minha casa. Não sou fluente em português e tenho um bom grupo de amigos. Gosto da natureza descontraída do país. É um país pacato que se adequa à minha personalidade. É um sítio onde me vejo a jogar durante muito tempo, mas no futebol nunca sabes o que é que está ao virar da esquina!

Fotografia: footconect.pt

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