O melhor, o pior, e o futuro dos Estados Unidos e do México

O golo solitário de Jonathan dos Santos decidiu a Gold Cup a favor do México, que ergue assim o troféu da competição pela oitava vez, e oferece o primeiro título de selecções a Tata Martino. A final da principal competição da CONCACAF colocou frente-a-frente as duas principais potências da conferência norte-americana, e o Soccer em Português faz um balanço daquilo que correu bem e mal a vencedores e vencidos, bem como das consequências do resultado para ambas as equipas. A análise da selecção campeã ficou naturalmente a cargo do especialista em futebol mexicano, João Pedro Cordeiro.

ESTADOS UNIDOS 0-1 MÉXICO (Jonathan dos Santos 73’)

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…NOS ESTADOS UNIDOS

O comportamento da turma norte-americana ao longo da primeira parte surpreendeu pela positiva. Houve intensidade, boa agressividade, e uma entrada confiante no desafio que se traduziu em duas oportunidades claras de golo desperdiçadas por Christian Pulisic e Jozy Altidore ainda nos dez minutos inaugurais. A nível individual, Pulisic não desarmou face ao peso da responsabilidade de carregar uma equipa aos 20 anos, e esse mérito valeu-lhe o prémio de Melhor Jogador Jovem da Gold Cup. No entanto, a grande final primou pelo colectivo, com vários elementos a gizarem exibições de boa qualidade. Reggie Cannon excedeu-se no principal desafio da sua jovem carreira, Cristian Roldan lutou bastante por um desfecho diferente e Matt Miazga foi um eficaz pronto-socorro no eixo defensivo. Outras tantas unidades construíram boas performances, embora uma boa parte delas acabaria por acusar visível desgaste na segunda metade.

O QUE MAIS GOSTEI DE VER…

…NO MÉXICO

(por João Pedro Cordeiro)

Depois de três anos de Juan Carlos Osório é, pelo menos, refrescante, ver uma seleCção mexicana com um modelo e ideia ainda que moderadamente definido e claramente em desenvolvimento. Depois de três anos de completa instabilidade táctica sob o comando técnico do colombiano, com Tata Martino, o México tem agora estabilidade. O sistema táctico e os elementos que o compõem já não variam de jogo para jogo. Ainda assim, nesta Gold Cup, o México foi uma equipa à procura de processos. Já lá vamos.

Numa competição em que o México ficou longe de deslumbrar, apesar da conquista final, saltou à vista a eficácia da equipa de Martino e, acima de tudo, a sua perseverança e força mental/psicológica. Em particular, na final, depois de uma entrada de leão da equipa dos EUA ajudada pela desorganização mexicana. Em condições normais, noutros anos, o México teria acusado o toque e dificilmente recuperaria do buraco cavado por si mesmo, porém, tal como demonstrou em jogos anteriores, este México pode não ser uma equipa bem oleada tacticamente mas mostrou ser uma equipa forte mentalmente.

Por fim, é impossível não destacar Uriel Antuna. O jovem de 21 anos dos Galaxy foi a grande revelação da equipa mexicana, tendo chegado à Gold Cup com apenas alguns minutos em dois particulares de preparação dos mexicanos, mas arrasado durante a fase de grupos da competição. Perante as ausências de Lozano e Lainez, Antuna agarrou a oportunidade com quatro golos e duas assistências e assumiu-se como uma opção de futuro para a selecção azteca. 

O QUE MENOS GOSTEI DE VER…

…NOS ESTADOS UNIDOS

Depois de um torneio radioso, devidamente assinalado na antevisão da final da Gold Cup, Weston McKennie assinou uma exibição desastrosa, a léguas do potencial demonstrado, e logo no palco mais importante. Muitas vezes perdido em campo, os seus níveis de agressividade estiveram aquém dos evidenciados pelos restantes colegas, e raras foram as vezes em que conseguiu pegar na bola e distribuir jogo. A sua passividade revelar-se-ia letal no momento decisivo da partida, quando não acompanhou Jonathan dos Santos como se exigia. Outro dos aspectos negativos que ajudam a explicar o resultado foi a ineficácia do ataque. Christian Pulisic aos 5’, e sobretudo Jozy Altidore aos 8’, desperdiçaram aquilo que poderia ser um arranque de sonho para os norte-americanos. Finalmente, o técnico Gregg Berhalter. Se na primeira parte, a estratégia montada teve o condão de criar dificuldades ao adversário, bastou Martino reagir ao intervalo e mudar a faixa de actuação de Rodolfo Pizarro, para que Berhalter se mostrasse incapaz de rebater. Promoveu substituições com pouco nexo, que denunciam erros de casting na convocatória, e alguma inaptidão preocupante na leitura de jogo.

O QUE MENOS GOSTEI DE VER…

…NO MÉXICO

(por João Pedro Cordeiro)

Perante as várias ausências, forçadas e não forçadas, da equipa mexicana para esta Gold Cup, a equipa de Tata Martino foi um conjunto demasiado desorganizado e desequilibrado para o que seria de esperar. Em condições normais, num contexto mais desafiante, dificilmente a seleção mexicana teria saído a sorrir e só a ineficácia estado-unidense evitou que o conjunto de Tata Martino entrasse na final de Chicago a perder por 2-0 ainda bem cedo no encontro.

As dificuldades mexicanas em matéria de organização, quer defensiva, quer ofensiva, foram uma constante ao longo da competição. Uma equipa interessante em determinados momentos do jogo, mas com pouca capacidade de ser perigosa em organização ofensiva e muito pouco coesa do ponto de vista defensivo. Faltam rotinas à equipa mexicana fruto da renovação/revolução a que Tata Martino foi obrigado e tal foi evidente no futebol jogado pela seleção mexicana. Só a inequívoca qualidade individual do plantel às ordens do argentino permitiu que o México vencesse mais uma Gold Cup, numa competição em que o México valeu sim pela qualidade individual e não pelo seu colectivo. No fundo, foi melhor o resultado do que a soma das exibições. Foi melhor o fim, do que os meios para a ele chegar.

E AGORA?

(ESTADOS UNIDOS)

Apesar da derrota, chegar à final da Gold Cup e perder pela margem mínima frente ao México, é um cenário positivo, tendo em consideração a recente ausência embaraçosa do último Campeonato do Mundo. Trata-se de um novo ciclo, com um novo técnico no comando, e essa realidade não pode ser descurada. A campanha de finalista vencido confere ao seleccionador Gregg Berhalter algum espaço de manobra, bem útil depois de vários resultados desapontantes em encontros amigáveis. Esse oxigénio durará tempo suficiente para que Berhalter possa observar a lista de jogadores seleccionáveis, alinhar estratégias, e encontrar soluções para várias posições problemáticas. A nível oficial, seguem-se as primeiras rondas da Liga das Nações, agendadas para Setembro, que se afiguram como oportunidades privilegiadas para encontrar novos laterais-esquerdos e pontas-de-lança, por exemplo. Sugestões para o imediato? Jorge Villafaña (Portland Timbers) e Bobby Wood (Hannover 96).

E AGORA?

(MÉXICO)

(por João Pedro Cordeiro)

A vitória na Gold Cup permite a Tata Martino encarar o futuro como seleccionador mexicano com uma tranquilidade que não seria possível caso o triunfo tivesse escapado aos aztecas. Ainda para mais, caso essa derrota tivesse acontecido fora da final ou, no caso da final, perante o grande rival da seleção tricolor. Mas, Martino, tem muito trabalho pela frente. Se o argentino, após a final, afirmou que não há razão para não esperar uma melhoria do México quando Hirving Lozano – segundo o próprio, um dos melhores extremos do futebol europeu – recuperar de lesão, os desafios de Martino vão muito além disso.

O México que venceu a Gold Cup foi um México desequilibrado e desorganizado, incapaz de ser sólido defensivamente e com dificuldades em construir volume ofensivo de forma organizada – sempre mais forte em transição do que em organização. Foi uma equipa em que o equilíbrio entre o modelo do treinador e a matéria prima à sua disposição esteve demasiado desequilibrado, com vários elementos a jogar fora do seu habitat natural. Esses, e a capacidade de Martino em devolver o orgulho de representar a selecção a algumas das principais figuras do actual futebol mexicano, são os grandes desafios do técnico argentino a curto prazo, ainda que, por esta altura, não falte matéria prima com qualidade para os substituir. 

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