“Queremos que o Orlando City seja o espelho do Benfica no mercado americano”

A primeira grande aposta no mercado norte-americano por parte de clubes portugueses foi protagonizada pelo Benfica no passado mês de Junho. Os “encarnados” assinaram um acordo válido por dez anos com o Orlando City, emblema que integrará a Major League Soccer na próxima temporada. Nuno Gaioso Ribeiro, vice-presidente do Sport Lisboa e Benfica, acedeu ao pedido do Soccer em Português, e explicou a fundo o teor desde acordo estratégico que nasceu de forma um pouco fortuita.

Qual a raiz desta parceria firmada com o Orlando City Soccer Club?

Do ponto de vista estratégico, o Benfica no seu projecto de expansão internacional procura mercados que tenham dimensão, e onde possa ter valor acrescentado naquilo que são as suas competências, e o mercado americano estava sob observação. Por outro lado, estas coisas têm sempre componentes acidentais e instrumentais, e acasos. O Flávio Augusto, proprietário do Orlando City, é um empreendedor de muito sucesso no Brasil, que viveu nos EUA, e que por razões conjunturais veio viver para Portugal. Foi-nos apresentado, e começou a frequentar o universo Benfica. A partir daí, começou uma conversa que se desenvolveu durante um período bastante longo sobre o que é que o Benfica podia fazer em conjunto com o Orlando City. Percebemos que o Orlando City reúne três condições únicas para fazermos uma parceira com um clube da MLS. Em primeiro lugar é um clube recente, que está ser objecto de um investimento muito significativo naquilo que é o seu projecto de futebol, que passa obviamente por competir na MLS no próximo ano, formar uma equipa competitiva, e favorecer também a formação de jogadores a partir de uma rede formação que está a ser desenvolvida na academia de Orlando. Em segundo lugar, gerido por um empreendedor novo, que teve muito sucesso no Brasil, e que vê o futebol de uma forma muito profissional. Por último, permite-nos fazer algo ainda mais alargado do que a MLS que é aproveitar a triangulação do eixo atlântico entre os EUA, Brasil e Portugal. Foi desta conjugação de factores que resultou a nossa parceria.

Como se encaixa o acordo em questão na estratégia internacional do Sport Lisboa e Benfica?

O Benfica é hoje um clube de topo mundial, na sua organização, nos seus recursos humanos e nos seus métodos. Fora das cinco principais ligas mundiais, é o clube com mais receitas. O trabalho desenvolvido é de excelência, mas está limitado ao fato de haver clubes do meio da primeira divisão inglesa com mais receitas de televisão do que quase toda a liga portuguesa. O Benfica tem de suprir essa limitação. Como é que o faz? Tentando expandir a sua marca para outros mercados onde seja reconhecida, e a partir daí o Benfica também gera receitas e novas oportunidades para investir. Que mercados são estes? Numa primeira linha são os mercados tradicionais onde a marca Benfica vale muito, como nos países da lusofonia. Em segundo lugar, mercados que tenham grande dimensão e crescimento, e simultaneamente onde a indústria do futebol possa beneficiar das competências mais maduras e mais desenvolvidas de um clube como o Benfica. Países do Médio Oriente, Índia, Indonésia, e obviamente, em primeiro lugar os EUA. Trata-se do maior mercado do mundo em termos comerciais, muito significativo em termos demográficos, e onde o futebol tem apresentado sintomas muito evidentes de ter um crescimento muito grande. Basta ver que a liga norte-americana em termos de futebol já é a quinta liga mais vista no mundo em termos de espectadores. Superou pela primeira vez em assistência média a NBA, e um conjunto de outros desportos interessantes. Acredito seriamente que daqui a dez anos a MLS esteja dentro dessas cinco ligas, e que seja um clube comprador de jogadores de elevado potencial, e não na componente de formação e de final de carreira, como é interpretada hoje pela generalidade das pessoas que olham para o mundo do futebol.

Um dos aspectos consagrados na parceria indica a disponibilização de bolsas de estudo a atletas portugueses, para que estes possam estudar e jogar futebol nos EUA. Como se prevê que isto venha a acontecer?

Os colégios e universidades americanas estão a começar a atribuir bolsas para praticantes de futebol. Através da estrutura do Orlando, nós podemos promover junto da rede Benfica atletas ou ex-atletas que pratiquem futebol ou outras modalidades a um nível competitivo que lhes permitam ter essas bolsas. Estamos a falar de uma dimensão até 1500 bolsas que nós achamos que podem estar disponíveis. Não sabemos se vai haver candidatos para essa dimensão. Aí é o mercado dos interessados que o vai ditar.

Os ex-juniores Rafael Ramos e Estrela foram recentemente cedidos ao Orlando City, e já são presenças assíduas nos jogos da USL Pro. Como classifica a sua adaptação ao clube norte-americano, e quais são os principais benefícios desta mudança para os atletas?

Pela informação que temos, o processo de integração dos dois jogadores está a correr bem. Estamos a falar de jogadores que antes de ir para Orlando estavam em fase de transição vindos dos juniores, e vão ter oportunidade de representar uma equipa que vai estar na MLS a partir de Março, num mercado com visibilidade e numa primeira liga. Provavelmente não teriam essa oportunidade imediata dentro do Benfica. Eu não imagino o que é que possa ganhar um jogador acarinhado pelos adeptos no universo da MLS, mas pode ganhar uma coisa que se calhar nem no próprio mercado doméstico poderia ter numa primeira fase. Em segundo lugar, tem-se assistido a fenómenos inversos, ou seja, jogadores que têm feito o seu processo de desenvolvimento e integração no futebol profissional em ligas como a MLS, e que sem prejuízo disso, também têm uma observação contínua por parte do mercado europeu. O Sporting tem dois casos desses: o Fredy Montero e o Oriol Rosell. O que esses jogadores ganham é a possibilidade de integração numa equipa de futebol profissional num mercado 30 vezes maior que o doméstico, e em que se esse processo correr bem, podem dar o salto e fazer o desenvolvimento normal da sua carreira. Por outro lado, ganham outra coisa. Qualquer um deles pode compatibilizar o futebol com a sua formação, e viver num local muito tranquilo, com grande qualidade de vida, e com um custo de oportunidade interessante como é Orlando.

O sucesso desta parceria assenta no êxito desportivo do emblema norte-americano. No entanto, a história diz-nos que todas as equipas de Florida na Major League Soccer acabaram por se extinguir. Porque é que desta vez as coisas podem ser diferentes?

Na Florida está um investimento em curso de grande dimensão no Orlando, e no Estado está um outro investimento anunciado que é o do David Beckham em Miami. Depois do Mundial de 1994, toda a gente tinha uma expectativa de crescimento da MLS diferente, e de fato a MLS não cresceu e não se desenvolveu com um ritmo tão elevado. Ultimamente têm havido sinais contrários daquilo que era uma tendência inicial esperada. Pela primeira vez nos últimos 3, 4 anos, há sinais de que o desenvolvimento do futebol é uma realidade. Em número de praticantes, praticantes federados, no volume que já movimentam as audiências físicas e televisivas, e naquilo que representa o mercado. Por exemplo, a apresentação do Káká em Orlando é um fenómeno que nós não imaginávamos acontecer nos EUA se não fosse com um jogador de basquetebol de beisebol ou de futebol americano. Por outro lado, existem aqui algumas componentes que não sei se no passado eram exactamente assim. O facto de existirem infraestruturas novas, centrais nas cidades, a notoriedade que o futebol está a ter… Eu acho que estão criadas as oportunidades para que a Florida possa criar ali um mini cluster. Tem outra vantagem, é que a Florida é um estado relativamente aberto a nível de emigração, com uma componente significativamente latina e também brasileira, o que pode beneficiar de uma parte populacional que é crescente e que tem um interesse efectivo pelo futebol. Não sou adivinho, mas acredito que os ingredientes do investidor, do Estado e do mercado possibilitem o desenvolvimento com sucesso destes clubes na Florida.

De que forma é que o Benfica olha para a MLS, do ponto de vista estratégico? Existe abertura para outros projectos no mercado norte-americano?

Eu acho que há vários tipos de oportunidades, mas primeiro queremos construir este projecto para que os adeptos do Orlando olhem para o Benfica como o clube de quem gostam de ver nas competições europeias e no mercado português, e que os portugueses radicados nos EUA, ou americanos com ligação ao Benfica vejam o Orlando como o seu clube. Nós queremos que o Orlando City seja o nosso espelho e o nosso gémeo no mercado americano. Nesse sentido, não é possível replicar este modelo com esta profundidade com mais clubes. Não quer isto dizer que não possam ser feitos acordos pontuais com outras entidades, clubes ou não, para cedência de jogadores, direitos televisivos ou acordos na área da formação. Há um ditado inglês que diz que muitos cozinheiros estragam o cozinhado. Neste momento o Orlando é a nossa porta e a nossa bandeira em termos de parceria com esta profundidade no mercado americano. Há outras coisas que temos certamente de fazer para desenvolver a marca, mas não poderão ser semelhantes com o acordo que temos com o Orlando.

Fotografia: Rute Rasga

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