Será este o ano da MLS na Liga dos Campeões?

A poucas horas dos Oitavos-de-final da Liga dos Campeões da CONCACAF, o técnico holandês Frank de Boer afirmou que a diferença qualitativa entre a MLS e a Liga MX está a diluir-se. A declaração vinda do líder do Atlanta United pode soar estranha, tendo em consideração que na última época a sua equipa mostrou-se impotente na eliminatória frente aos mexicanos do Monterrrey. Por outro lado, convém lembrar que em onze edições da competição, os emblemas da Major League Soccer conseguiram somente alcançar a final em três ocasiões (2011, 2015 e 2018), sem nunca conquistar o ambicionado título continental. No entanto, ao olhar para os representantes de 2020, é possível sustentar a tese de que os norte-americanos apresentam boas hipóteses de surpreender os seus vizinhos da Liga MX. O Soccer em Português dá a conhecer o quinteto da Major League Soccer que sonha em participar no Mundial de Clubes, e para nos ajudar a conhecer os oponentes mexicanos, contamos com a habitual ajuda do especialista em assuntos da Liga MX, João Pedro Cordeiro.

SEATTLE SOUNDERS FC

Modo de classificação: Campeão da MLS

Melhor prestação: Meias-finais (2012/13)

Adversário: Olimpia (Honduras)

Após ter conquistado o segundo título da Major League Soccer da sua história, o Seattle Sounders assumiu uma posição de domínio interno quase hegemónico, ao estar presente em três das últimas quatro finais da competição. O actual momento anímico é o ideal para almejar a glória continental, e o alinhamento das eliminatórias também. Caso o clube de Seattle siga em frente, só enfrentará adversários mexicanos a partir das meias-finais, cenário bastante favorável, sobretudo quando se tratam dos primeiros encontros oficiais da temporada. Do plantel campeão, o técnico Brian Schmetzer perdeu quase todas as unidades disponíveis para o eixo defensivo, e a sua reposição representou o principal desafio do defeso. A promoção a titular do internacional equatoriano Xavier Arreaga e a contratação do colombiano Yemar Gómez Andrade (Unión Santa Fe) foram as soluções encontradas, prontas para provar o seu valor já nas Honduras. No ataque à Liga dos Campeões, o Sounders garantiu igualmente os serviços do médio brasileiro João Paulo (Botafogo).

LOS ANGELES FC

Modo de classificação: Vencedor da Fase Regular da MLS

Melhor prestação: (nunca participou)

Adversário: Club León (México)

A terceira época da história deste recente clube californiano arrancará com a presença inédita na Liga dos Campeões, realidade que vem atestar a qualidade do franchising responsável por suplantar o recorde de número de pontos na Fase Regular da Major League Soccer. No entanto, a fava mexicana calhou aos estreantes, que terão de defrontar o Club León já nos Oitavos-de-final. A turma de Bob Bradley continua a ser o mais temível representante norte-americano em prova, pese embora a saída inesperada do seu melhor central, Walker Zimmerman. O ponta-de-lança norueguês Adama Diomande lesionou-se em vésperas dos jogos decisivos, mas o clube rectificou o percalço com a contratação do experiente Bradley Wright-Phillips. O internacional holandês Kenneth Vermeer (Feyenoord) também é novidade na baliza, e a tradição do clube em fazer negócios na América do Sul trouxe os jovens Francisco Ginella (Montevideo Wanderers) e José Cifuentes (América de Quito). Assim sendo, o Los Angeles FC continua a ser dono de um dos plantéis mais completos da prova, recheado de alternativas, ideal para surpreender na Liga dos Campeões logo à primeira tentativa.

NEW YORK CITY FC

Modo de classificação: Vencedor da Conferência Este

Melhor prestação: (nunca participou)

Adversário: San Carlos (Costa Rica)

A bola ainda nem começou a rolar e a polémica já estalou em Nova Iorque, com a direcção a anunciar que o clube irá estrear-se na Liga dos Campeões na Red Bull Arena, terreno dos rivais New York Red Bulls, por indisponibilidade do habitual Yankee Stadium. Os adeptos ameaçam o boicote, desviando de forma involuntária a atenção de um conjunto bastante equilibrado, que conta com uma cara nova no comando técnico. O norueguês Ronny Deila, campeão no seu país e na Escócia, tem matéria-prima suficiente para fazer uma gracinha. Reforçou largamente um meio-campo que já era nota de destaque, com as entradas de Gedion Zelalem (Sporting KC) e de Gudmundur Thórarinsson (Norrköping). A grande dúvida reside na frente de ataque, sector colocado em questão pela sua incapacidade de fazer a diferença nos momentos mais complicados. Veremos como se comporta a ofensiva nova-iorquina no palco exigente que é a Liga dos Campeões.

ATLANTA UNITED

Modo de classificação: Vencedor da Taça dos EUA

Melhor prestação: Quartos-de-final (2019)

Adversário: Motagua (Honduras)

O mercado de Inverno tem sido uma experiência agitadíssima para os lados de Atlanta, com os adeptos preocupados com a saída de vários titulares, e desconfiados do valor de alguns dos seus substitutos tardios. Michael Parkhurst retirou-se, ao passo que Darlington Nagbe, Florentin Pogba, Justin Meram, Leandro Gonzalez Pírez, Julian Gressel e Héctor Villalba, todos eles foram para outras paragens. Lista de entradas? Brooks Lennon (Real Salt Lake), Anton Walkes (Portsmouth), Fernando Meza (Tijuana), Edgar Castillo (New England Revolution), Jake Mulraney (Hearts), Matheus Rossetto (Athletico Paranaense) e Manuel Castro (Estudiantes). Grande parte destas peças acabaram de chegar, e do que sabemos delas até agora, aparentam ser no seu conjunto, inferiores ao grupo que saiu, pelo que Frank De Boer terá o desafio de colocar a equipa a funcionar a tempo de não sair humilhado das Honduras. Daquilo que a pré-época nos tem mostrado, os argentinos Pity Martínez e Ezequiel Barco parecem estar em boa forma, e isso pode ser suficiente para garantir resultados nos jogos inaugurais.

MONTREAL IMPACT

Modo de classificação: Campeão canadiano

Melhor prestação: Finalista (2014/15)

Adversário: Saprissa (Costa Rica)

O representante da Major League Soccer que mais longe chegou na prova, ao terminar como finalista vencido em 2014/15, é também o menos cotado para ter êxito na Liga dos Campeões em 2020. O Montreal Impact arranca a nova temporada com Thierry Henry no comando, ansioso por provar a qualidade do seu trabalho, depois da experiência pouco positiva no Mónaco. Apesar de uma pré-época atribulada, marcada pela saída da estrela da equipa Ignacio Piatti, o ex-internacional francês garantiu que não existem desculpas para falhar o acesso aos Quartos-de-final. Contudo, avizinha-se uma estreia difícil para Henry no terreno espinhoso do Saprissa, após quatro derrotas consecutivas na pré-época. Figuras de proa como Saphir Taider ou Bojan Krkic vão ter que se superar caso queiram colmatar o vazio confrangedor do plantel canadiano.

O QUARTETO MEXICANO

(por João Pedro Cordeiro)

CLUB LEÓN

«Desde que Ignacio Ambríz assumiu o comando técnico da Fiera que nenhum outro clube mexicano evoluiu tanto. Só a perda de jogadores fulcrais em momentos decisivos da temporada passada, como foi o caso de José Juan Macías durante a Liguilla do Clausura 2018, por exemplo, e que valeu a qualificação do León para a competição, evitaram o regresso aos títulos do histórico emblema de Guanajuato. A perda de Macías parecia ser um rude golpe nas aspirações do León para o que restava da temporada, porém, Ambríz tem mostrado que mais do que a soma das peças, o segredo do León atual reside no coletivo (ainda que mais do ponto de vista ofensivo que defensivo) e por isso, como sempre, um clube contra corrente num futebol mexicano ainda muito potenciado pela expressão individual. Ao conjunto de Guanajuato até pode faltar experiência a este nível – é somente a segunda participação na prova e a primeira desde a temporada 2014/15 -, mas com Luis Montes renascido e Ángel Mena a jogar o melhor futebol da sua carreira, o céu é o limite para o bicampeão mexicano em 2013/14».

CRUZ AZUL

«Depois de um período de grande fulgor sob a orientação da dupla Ricardo Peláez/Pedro Caixinha, que colocou La Maquina mais próximo de títulos (que venceu), o Cruz Azul vive um período de crise de identidade assumido pelos próprios jogadores do conjunto celeste como Pablo Aguilar que em entrevista recente afirmou ter sido um erro deixar sair Peláez para o Chivas. Tal como o León, o Cruz Azul acaba por chegar à fase final da Liga dos Campeões após uma temporada de “quase” e, tal como o León, perdendo a final de um torneio mexicano quando lá chegou como favorito à conquista do mesmo, mas ao contrário do que sucede com La Fiera, o Cruz Azul chega longe do nível com que se qualificou. Tanto, que durante a primeira fase da temporada não conseguiu sequer a qualificação para a ronda final do Apertura. Robert Siboldi parece finalmente ter endireitado o barco, mas o Cruz Azul terá de encontrar forma de ser tão eficaz ofensivamente como o é defensivamente para que se consiga afirmar como um favorito à vitória final e colocar finalmente um ponto final na seca de grandes títulos que atravessa. Mas que não restem dúvidas: a Liga MX é a grande obsessão do emblema da Cidade do México».

TIGRES UANL

«Ao contrário do que vinha sendo habitual nos últimos anos, o Tigres não entra para o que resta da temporada embalado por uma contratação sonante. O ataque à Liga dos Campeões da CONCACAF faz-se na base da continuidade por Nuevo León (Nico López chegou mais para suprir a perda de Zelarayán do que para apetrechar ainda mais o conjunto às ordens de Tuca Ferretti) e isso não é necessariamente mau, mesmo que o avançar da idade de grande parte do plantel deva começar a ser uma preocupação para os responsáveis do clube. Nos defeitos e nas virtudes, o Tigres não surpreende: continua a ter um dos planteis mais ricos e talentosos do futebol americano onde a qualidade ofensiva desequilibra a balança quase sempre a favor dos felinos. É que apesar de defensivamente, do ponto de vista individual, o Tigres continuar a ser uma equipa limitada (mesmo após as chegadas de Diego Reyes e Salcedo, já que falta qualidade nas laterais e acima de tudo profundidade em todo o setor), em termos organizacionais poucas equipas defendem tão bem, tal como é habitual no conjunto de Ferretti. O fim de ciclo do Tigres para conquistar um título internacional com esta geração de jogadores começa a estar próximo e dificilmente esta não será a grande prioridade da equipa felina».

AMÉRICA

«O regresso de Miguel Herrera ao América recolocou as Águias no caminho dos títulos domésticos, mas mais do que os triunfos recentes do conjunto da capital mexicana, tem sido a reconstrução do plantel após a perda de nomes absolutamente fundamentais para a manobra da equipa, por parte do Piojo, que mais tem impressionado. Nos últimos meses o América perdeu Édson Álvarez, Mateus Uribe, Marchesín e Guido Rodríguez, quatro dos melhores jogadores da liga, mas nem por isso o América perdeu competitividade. Que ninguém se engane: este América pode não ter os nomes do passado, mas nem por isso o conjunto americanista parece enfraquecido. Só nas grandes penalidades falhou o título mexicano durante o Apertura e o Clausura começou igualmente fulgurante para o América. As lesões no setor ofensivo têm limitado a capacidade goleadora da equipa, mas a organização defensiva de excelência vai segurando as pontas enquanto Herrera aguarda o regresso das suas maiores figuras ofensivas. O América continua a ter um plantel impressionante e ter o Azteca do seu lado é sempre um fator de desequilíbrio numa temporada em que parece mais próximo do que nunca a perda da hegemonia do futebol mexicano na competição. O América é, ainda assim, provavelmente, a grande esperança da Liga MX para que tal não aconteça».


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